Quando a canção bota banca

Milênios de história da informação em breve e poética sentença: da árvore ao papiro, da prensa “gutenberguiana” às nobres mãos do jornaleiro. À margem de tais reviravoltas tecnológicas, a famosa (e, destaque-se, idílica) banca de revistas parece, ainda hoje, servir de cais aos movimentos do tempo. Neste curioso e comezinho supermercado simbólico, afinal, edificam-se sociabilidades, (re)encenam-se princípios, ideias e acontecimentos.

Se, na atualidade, comportam guloseimas, aparatos eletrônicos, bebidas e parte dos anéis de Saturno, sob outros ventos e eras, bancas transfiguravam-se em território propício à coleção de zeitgests, ou “espíritos do tempo”. De pé, diante de revistas e jornais – com capas e primeiras páginas escancaradas, a estampar belezas, reveses, glórias e ansiedades do “mundo da vida” –, homens e mulheres alimentavam-se de signos, contextos, desejos, saberes, suscetibilidades.

Sob outros tantos luares – mas sempre por detrás “daquela banca da esquina” –, indivíduos tramavam revoluções. Ou golpes, quereres, engodos, agravos, desacatos, extermínios, desafogos, contendas, regabofes, afagos, contrabandos… e amores. (Até que os lábios do Sol restaurassem a temida indiscrição das luzes.)

Ou a melodia dos fatos. Os versos do tempo. E a (complexa) harmonia da experiência humana.

“O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia?”, esquadrinhava Caetano Veloso, nos plúmbeos anos 1960, em “Alegria, alegria”. Difícil responder, caríssimo poeta! Só sabemos, mesmo, do inevitável.

De todo modo, há quem demande, na contramaré de sua incredulidade, por mais sóis e noticiários: “Bota banca na avenida! Edição especial. Olha aí o jornaleiro. A piada está com sal”, celebravam Bala e Celso Trindade, em “Traços e troças”, samba enredo do Salgueiro, em 1983.

Quem “bota banca”, afinal, quer chamar a atenção, quer se exibir. Em “Carta branca”, Paulo César Pinheiro adverte (e diverte):  “Vê se se manca, você já não tem mais carta branca. Se arranca! Não bota a banca e vai com Deus!”. Ao que o Barão Vermelho confirma, em “Posando de star”: “Você precisa descobrir o que está perdendo, botando banca, posando de star”.

Por sua vez, com o coração entre as mãos, Amado Batista cantava sua “Capa de revista”, como a dizer da dor que, definitivamente, não sai no jornal: “Passei pela banca, sem ver que o bom jornaleiro, contente, sorria. Então, me chamou. E a revista mostrou, sem saber o quanto eu sofria”.

Sabedor das trampolinices da paixão, e, também, das solicitações da carne, Odair José corria à banca, em busca da “Revista proibida”, na qual, em meio à floresta de desejos e restrições morais, encontraria, finalmente, o amor: “Eu comprei uma revista proibida, uma revista só pra homens. Eu não pensei em nada. Eu só comprei pra ver uma revista que falava tanta coisa, sobre coisas de mulheres. E, na primeira página, eu encontrei você. Eu encontrei você”.

À forma de Odair, Tuca Oliveira percebe, sobre a “Banca de jornal”, a indelével tez dos véus da esperança: “Passo a tarde em frente ao mar. Eu vou com meu chapéu de sol. Talvez eu te encontre lá, naquela banca de jornal”.

Em vibe outra, de costas às intempéries do amor, a banda Charlie Brown Jr. – calejada às tramoias da noite – revelava, no espaço aparentemente destinado ao mero noticiário da existência humana, “Aquele velho carteado e algumas manobrinhas” (de skate): “Mas e aí, então, não se desespere, não. Vá até uma banca e compre uma revista Thrasher, irmão. Mas e aí, então, não se desespere, não. Vá até uma banca e compre uma revista Thrasher, irmão”.

Em “Suburbano”, Rappin’ Hood parecia entediado, justamente, com as tais inutilidades da vida que não cessa (ou se reitera, infinitamente): “Na banca de jornal, vejo as novas do dia: o dólar que subiu, o pai que matou a filha. No boteco, a conversa sobre futebol, e a eterna briga se foi pênalti ou não”.

Raul Seixas perceberia, contudo, que algo estava por vir, em outras searas. Seria, digamos, o “Novo Aeon”? “O sol da noite agora está nascendo. Alguma coisa está acontecendo. Não dá no rádio e nem está nas bancas de jornais”, vaticinava.

De todo modo, a vida não para, como bem nos revelava Cazuza, em “Jornais”: “Como um jornal, abro a janela, e vejo bancas, café da manhã. Jornais… As pessoas leem jornais”. Sim, Agenor! Seu amigo Tom Zé, porém, enxergava tudo o que aí está com muita tranquilidade. E garantia, em “Banca de jornal”: “Veja, isto é pouca lenha no grande bate-boca. E ainda escrevo uma carta capital, para os caros amigos desta banca de jornal”.

Renato Russo e a Legião Urbana, ao contrário, voltavam a delatar noites tenebrosas, ansiosas por adular “cidadãos” com interesses escusos – e pouquíssimo respeito aos demais. No “Faroeste caboclo” dos dias, há quem ofereça favores em nome do caos: “Não boto bomba em banca de jornal, nem em colégio de criança. Isso eu não faço, não! E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa com o cu na mão”.

De todo modo, indiferente a generais de alta patente – e baixa dignidade –, a vida, realmente, não para. Que o digam os Inimigos do Rei, e o doce existir dos amores de “Adelaide”: “Andava na rua à noite totalmente só. Vez ou outra, via coisas em bancas de jornal. Pensava na gaja. Sem motivo, me deixou. Quando, de repente, ouvi alguém pequeno ‘gritaire’. Qualquer cola? Poesia? Mariola? Quem vai? Ah! Quem vai?”.

A verdade é que a “Vida da gente”, mesmo no angu da balbúrdia, segue firme! Muito firme! Não é, Zeca Pagodinho?! “Dou uma filada no jornal da banca, olho o futebol e filmo a Playboy. Olha que eu sou gente fina, moço. Me desculpe, mas não sou herói”, responde-nos, sábio e solene, o nobre bardo de Xerém.

Falou tudo, Zeca! Herói, convenhamos, é coisa de revista. Pois, no fundo, no fundo, só nos resta, mesmo, a tal melodia dos fatos. E os versos do tempo. Além, é claro, da (complexa) harmonia da experiência humana.

Estão todos, enfim, à cata do que Vitor Ramil, tão apropriadamente, chamaria de “A resposta”: “O homem caminha só na estação, vindo de todo trem, de todo lugar. Chega na banca e olha o jornal, tira do bolso o último cigarro. Ri da notícia antes de ler”.

Pois ria, amigo! E não se apoquente.

A vida continua à espera, logo ali, detrás daquela velha banca da esquina.

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