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A difícil arte de amadurecer

O que são crianças? Penso nelas como pequenos humanos vestidos de energia, sonho, alegria, fragilidade, e despidos de crueldade, sexo e posses. Crianças são, para mim, a genuína forma do ser. Elas são, apenas. Não pesquisam, nem receiam… Agem.

Ontem, existiam apenas crianças e adultos. Depois, no meio disso, Stuart Hall viu a adolescência. Como proceder amanhã, quando veremos apenas adultos ou crianças indumentadas de adultos? “Crianças adultas” crescem como frutas que aumentam de tamanho, mas nunca ficam maduras –ficam ácidas. Tudo precisa chegar rapidamente. Não cultivam, não esperam e não observam; apenas querem e têm.

Zaratustra, aquele profeta do Nietzsche, comparava homens a plantas e dizia que um vendaval curvava grandes árvores, assim como os males invisíveis da sociedade açoitavam uma “alma”. Falava que o segredo das árvores, para se manter de pé, frente à ventania, eram as raízes profundas.

Contudo, “crianças adultas” não tiveram tempo para criar raízes. Como lidarão com futuras ansiedades e decepções? Não lidam. Continuam escravas da satisfação e livres de consequências. Transferem as dificuldades a seus progenitores e vivem para consumir. Esquecem o amanhã e habitam o segundo que acabou de passar.

A instantaneidade e a impulsividade são um trunfo para o comércio, explicava Zygmunt Bauman. Daí, não tão raro, vemos a importância dada à velocidade em se formar adultos consumidores e impacientes. Crianças adultas brincam de carrinho no trânsito, de médico, de “bandido e mocinho”, de casinha, de profissional no trabalho, de estudante em sala, de fiel na igreja, de honesto na comunidade e de melhores amigos na vida. Para elas, mais vale a beleza de uma fotografia do que o momento vivido.

“Crianças são o futuro de uma nação”, mas quem o constrói somos nós, que já fomos pequenos e apresentamos, agora, as primeiras cores às novas gerações. Aprendemos que amadurecer é uma difícil arte, em que precisamos usar e misturar as cores que nos são dadas durante a vida –brandas e calmas, vibrantes e alegres, escuras e tristes–, para imbuir de estética e significado a pintura de um autorretrato.

Por tudo isso, assumir a educação de uma criança é, também, responsabilizar-se pelo futuro de outras tantas. As mesmas que percorrerão as galerias e exposições de pinturas que organizamos.

William Araújo

Fonte: Catraca Livre

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